Entre Gols e Gabinetes: o que o Brasil deixa de ver enquanto assiste à Copa.
Política
O futebol ocupa um lugar singular na história do Brasil. Nenhum outro evento é capaz de mobilizar emoções tão intensas, interromper rotinas e criar um sentimento coletivo de pertencimento como uma Copa do Mundo. Durante algumas semanas, milhões de pessoas voltam seus olhos para os gramados, para os ídolos da seleção e para o sonho de um título mundial.
Mas a história também mostra que grandes eventos esportivos frequentemente coexistem com momentos decisivos da vida política nacional. Não porque exista necessariamente uma conspiração ou uma estratégia coordenada para "esconder" acontecimentos, mas porque a atenção pública é um recurso limitado. Quando o país está emocionalmente concentrado em um único tema, outros assuntos tendem a perder espaço no debate.
Em 2026, o Brasil vive um período particularmente sensível. O país se aproxima de mais uma eleição presidencial marcada pela polarização, pelo fortalecimento do Congresso Nacional, pelas disputas em torno da economia, pela crise de representatividade e pela crescente fadiga política que afeta parcela significativa da população.
Nesse contexto, a Copa do Mundo pode funcionar como uma espécie de pausa emocional coletiva. O problema surge quando essa pausa se transforma em distração permanente. Questões como a sustentabilidade das contas públicas, reformas estruturais, decisões do Supremo Tribunal Federal, mudanças regulatórias e negociações políticas relevantes podem receber menos atenção da sociedade enquanto o foco permanece voltado para o desempenho da seleção. Muitas dessas agendas, aliás, não dependem exclusivamente do governo federal. Elas refletem uma complexa relação entre Executivo, Congresso Nacional, Judiciário e interesses econômicos que moldam o funcionamento da democracia brasileira.
A fadiga política ajuda a explicar esse fenômeno. Depois de anos de conflitos ideológicos, crises institucionais, campanhas eleitorais praticamente contínuas, pandemia, turbulências econômicas e disputas permanentes nas redes sociais, muitos brasileiros demonstram exaustão diante do noticiário político. Para uma parcela da população, acompanhar a Copa representa um alívio diante de um ambiente político que parece cada vez mais desgastante e improdutivo.
Não há nada de errado em celebrar o esporte. O problema começa quando o entretenimento substitui completamente o exercício da cidadania. Democracias dependem de cidadãos informados, atentos e capazes de fiscalizar seus representantes. Quando o debate público se enfraquece, aumenta o espaço para decisões tomadas longe do escrutínio popular.
Ao mesmo tempo, seria simplista afirmar que a Copa serve apenas para desviar atenções. Grandes eventos esportivos também revelam aspectos importantes da realidade nacional. Eles expõem desigualdades, despertam debates sobre investimentos públicos, infraestrutura, segurança, turismo e identidade nacional. Em muitos casos, tornam visíveis problemas que normalmente passariam despercebidos.
A verdadeira questão talvez não seja o que a Copa esconde, mas o que a sociedade escolhe não enxergar enquanto ela acontece. A política brasileira continuará produzindo impactos na vida dos cidadãos muito depois do apito final da competição. Governos continuarão tomando decisões. O Congresso continuará votando projetos. Tribunais continuarão julgando questões relevantes para o país.
Seria injusto atribuir exclusivamente ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a responsabilidade por todas as dificuldades enfrentadas pelo país. Embora seja legítimo criticar decisões e políticas públicas da atual gestão, o Brasil atravessa desafios que se acumulam há décadas e que foram agravados por sucessivas crises econômicas, sanitárias e institucionais. Além disso, o atual governo opera em um ambiente político marcado por um Congresso cada vez mais autônomo e influente, o que limita a capacidade de qualquer presidente de implementar sua agenda sem amplas negociações e concessões.
Isso não significa isentar o governo de responsabilidades. Significa reconhecer que a governabilidade brasileira tornou-se mais complexa. O presidencialismo de coalizão passou por transformações profundas nos últimos anos, transferindo parte significativa do poder político e orçamentário para o Legislativo. Muitas vezes, a população concentra suas críticas exclusivamente no Palácio do Planalto, enquanto decisões igualmente importantes são tomadas em outras esferas do poder.
Quando a Copa terminar, o Brasil continuará enfrentando os mesmos desafios: crescimento econômico, combate à desigualdade, segurança pública, educação, saúde, meio ambiente e fortalecimento das instituições democráticas.
O futebol pode oferecer momentos de alegria, orgulho e união nacional. Mas nenhum título mundial será capaz de resolver problemas que exigem participação política, planejamento e compromisso coletivo. O risco não está em assistir aos jogos. O risco está em esquecer que, enquanto a bola rola, a história continua sendo escrita fora dos estádios.
A crítica democrática não deve servir apenas para apontar falhas de governos, mas também para compreender a complexidade dos desafios nacionais. Em uma democracia, governar exige responsabilidade do Executivo, fiscalização das instituições e participação ativa da sociedade. Nenhum presidente, seja Lula ou qualquer outro, é capaz de enfrentar sozinho, problemas históricos que exigem compromisso coletivo e visão de longo prazo.
Enquanto a bola rola, a política continua acontecendo. A diferença é que, muitas vezes, poucos estão olhando.
Por Regina Papini Steiner
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